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Pedalando no Outono de Amsterdam

O inverno nem começou mas o frio de Outono já é um inverno Porto Alegrense, dizem que nem fica tão mais frio do que isso, mas contando que amanhece cada vez mais tarde e escurece cada vez mais cedo, o frio vai ficando no ar por muito mais tempo, e certamente será mais frio do que Porto Alegre no último inverno. Dizem que fica entre os 5°C e -5°C, variando um pouco a sensação térmica, pra menos.

Mas não adianta, para que o sujeito realmente se misture com os locais, tem que ter uma bicicleta como principal meio de transporte e nem ligar para o clima lá fora, é sentar na bike e pedalar!

No domingo passado (finalmente) comprei a minha primeira bicicleta em anos. Uma Gazelle marrom, usada e retrô, por bom preço e bom estado, e que já vive profundamente em meu coração, afinal de contas, como não sentir um carinho absurdo por este velocípede de duas rodas que te carrega de um lado para o outro com tanta leveza e aconchego?

Tenho ido e voltado do trabalho todos os dias pedalando, e a moral toda de pedalar aqui é que nada pode ser um empecilho (exceto vento de mais de 60K/h eu diria — mas ainda assim, terá gente pedalando pelas ruas). Sendo assim, choveu, nublou, rolou serração e frio de 4 graus e lá fui eu na minha bike, nervosa e atenta. E, com isso, aprendi algumas coisas essenciais para sobreviver e curtir o passeio, a seguir.

Capa de chuva
Não tem como pedalar na chuva sem capa de chuva, ainda mais indo para um lugar que não é a sua casa. Quando você chega nos lugares eles estão quentinhos e agradáveis e, por mais que isso ajude a secar a roupa, a mudança de temperatura do corpo gelado e molhado da chuva (principalmente no core — peito e costas) pode ser bem prejudicial para a saúde.

Eu comprei uma linda capa de chuva azul marinho com um capuz que parece até um boné, e que evita molhar o rosto e principalmente os olhos. Paguei meros  €58 em promoção.

Pedalando na chuvaCrédito foto

Legging ou meia-calça térmica é MUITO melhor do que calça jeans
Apesar da capa de chuva, as pernas vão molhar, não adianta*. E calça Jeans é um grande NÃO para o frio em qualquer situação, mas principalmente para pedaladas. Calça jeans com meia-calça por baixo? Pior ainda pois aí você está molhada em camadas, quando o jeans secar, a meia-calça ainda estará úmida e será extremamente desconfortável.

Aprendi que, usando somente uma meia-calça ou legging térmica (tem que ser térmica!) protege o suficiente do frio, dado que as pernas estarão em movimento constante e esquentarão com isso. Vai molhar? Vai, mas vai secar muito mais rápido também, e ainda, carregar uma meia-calça extra na mochila e trocar logo que chegar é muito mais simples do que trocar uma calça jeans!

*Existe calça impermeável que coloca por cima da calça normal, e também umas capas muito loucas que cobrem o corpo até o guidon, mas não testei e ainda não vi necessidade.

Luvas
Neeeem pensar pedalar sem luvas! Eu vejo um monte de gente fazendo isso e não entendo como eles chegam no destino final e conseguem descolar as mãos do guidon da bicicleta! As mãos pegam um super vento, e quando molha pode ficar escorregadia e congelar (talvez não literalmente, ou talvez sim). O ideal são luvas de couro ou material impermeável, mas como elas tem que ficar bem firme e as minhas mãos são obviamente muito pequenas para o padrão do mercado de luvas, ainda não encontrei as luvas ideais pra mim. Ainda assim, luvas normais de lã já ajudam bastante.

Sapato fechado e apertado
Esses dias fui para o trabalho com uma botinha que fica um pouco larga na canela, e adivinha o que aconteceu? Água na bota. Depois dessa, amarro bem firme os cadarços da bota e sigo em frente sem água no sapato, essa é a pior coisa que pode acontecer pois significa que uma parte de você estará molhada e gelada pelo resto do dia, pois a parte interna do sapato não seca tão fácil.

E tem outra, Converse All Star é um grande NÃO, gente. NÃO NÃO NÃO. Sapato de tecido no geral, mas All Star tem aquele plus a menos, sabe? O melhor é sapato de couro ou de borracha.

O melhor tênis pra dias de chuva, Chuck Taylor emborrachado <3O melhor tênis para dias de chuva, Chuck Taylor emborrachado <3 | Crédito foto

Meia extra
Obviamente depois do atentado da água dentro das botas, eu coloquei uma meia extra dentro da mochila. A meia extra é boa também pois os pés tendem a suar com o exercício da pedalada e depois disso (os meus) ficam gelados e úmidos. É bom poder trocar de meia se ficar muito desconfortável, pés protegidos e quentinhos ganham duas vezes mais curtidas (Thumbs Up!).

Toalhinha
Aqui em Amsterdam você estaciona a bicicleta onde tiver vaga e, acredite, às vezes é bem difícil achar uma vaga, e quase sempre elas não são cobertas! Aí o que acontece, você estaciona sua bike em algum canto fácil de memorizar, prende ela com uma corrente bem pesada (bem pesada mesmo, bicicleta é o item mais roubado aqui na Holanda), vai trabalhar bem tranquila, e quando volta, choveu o mundo inteiro na sua bicicleta e você vai molhar o popô se sentar ali. TOALHINHA SALVA! Toalhinha também ajuda se você precisar se secar um pouco depois de uma pedalada. Toalhinha ajuda você em todos os momentos, e você deveria carregar uma em todas as situações da sua vida, e você também já deveria saber disso muito bem, não é mesmo, Mochileiro?

Estacionamento de bicicletas em AmsterdamCrédito foto

Sinalização
Eu não sei, talvez eu seja amadora ou preocupada demais com a minha sanidade, mas gosto de seguir as regras. Vejo muita gente pedalando e não parando no sinal, atravessando no meio dos carros, cortando a frente da galera pela esquerda, não fazendo sinal que vai dobrar. Isso me incomoda um monte, e às vezes me faz sentir insegura. O ideal é seguir as regras e ficar seguro. Além da sinalização, tem as linhas de tram que passam no meio da pista, eu morro de medo que alguém faça alguma coisa incorreta no trânsito e eu, tentando desviar ou me safar de qualquer problema, fique preza na linha de tram. Deve ser A PIOR coisa, e muito assustador.

Ache o erroCrédito foto

Os outros
Outro motivo para alguém, sem querer, te jogar para a linha de tram ou qualquer outra coisa, é que muita gente aqui se sente extremamente confortável pedalando. Tão confortável que em dia de chuva pedala segurando um guarda-chuva com uma das mãos. Tão confortável que anda segurando um guarda-chuva com uma mão e falando no WhatsApp com a outra. Tão confortável que anda segurando um guarda-chuva com uma mão, falando no WhatsApp, e fumando um cigarro com o pé. Ok. Um pouco exagerado, mas é quase isso, só vendo pra entender.

E tem também as motocicletas que vão até 30K/h e andam na ciclovia, você está bem de boa pedalando e elas ultrapassando em zig-zag. Então tem que prestar atenção, se não pode dar de cara no chão (rima pra recordar).

Pessoa pedalando e falando no celularCrédito foto

Pessoa com três crianças na bicicletaCrédito foto

Pedalando em AmsterdamObserve a linha do tram, tamanho perfeito pra encaixar o pneu da sua bicicleta | Crédito foto

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Precisei me dar conta de todas essas coisas aos poucos, a cada dia de pedalada, labuta, pedalada. Às vezes você sai feliz e contente em um dia ensolarado (mas frio!) e na hora de voltar, caindo aquela chuva. Às vezes o contrário, e você chega no final do dia para pegar a bike e ela está seca e radiante esperando para te levar pra casa. O clima aqui é sempre uma surpresa, mas independente do clima, a probabilidade de chover a qualquer momento todos os dias é sempre grande, e devo dizer que a cidade é linda assim mesmo, sempre linda, e é incrível poder pedalar por aqui.

Estamos em época de natal, há muitas luzes e enfeites nas ruas, quando volto à noite, atravesso um túnel imenso de luzes de natal, tipo Natal Luz de Gramado (haha). Quando passo por uma banquinha de batatas fritas, sinto aquele cheiro delicioso de fritura que só o ser humano entende, sinto também o cheiro da comida bem temperada do restaurante indiano mais adiante, sinto a brisa e os pingos de chuva no rosto, o ar quente saindo do peito e encontrando o ar frio externo. Atravesso a neblina em meio às árvores, agora quase cem por cento nuas. Vejo pais levando suas crianças no barquinho da frente da bicicleta, os ouço cantar. Vejo mães pedalando ao lado das suas crianças, ensinando-as a se virar. Encontro colegas, que passam por mim, tocam o sino e gritam “até amanhã!”, em inglês, e em português também.

Às vezes, na volta pra casa, paro no supermercado, pego um vinho e um pão, e continuo a pedalar o resto do caminho. Nada mais aconchegante do que um vinho após uma boa pedalada sob chuva.

Amsterdam com serraçãoCrédito foto

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P.S.: Eu ainda não sei o que vou fazer/como vou fazer quando começar a nevar. Dizem que não neva muito, mas um pouquinho de gelo na pista já me deixa tensa!

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